A culpa em relação aos filhos: como administrar esse sentimento

Mas será possível ser mãe sem estar às voltas com esse sentimento?
No meu dia a dia, ao lidar com mães, constato que esse sentimento é mais comum do que imaginamos. Dificilmente vejo mães que conseguem desempenhar, livres de culpa, a função materna.
O que tento discutir é o fato de as mães partirem do princípio de que não são perfeitas e que inevitavelmente cometem falhas. Entretanto, proponho refletirmos sobre o que é possível fazer para amenizar essa culpa que angustia tantas mulheres.
Acredito que hoje, o cotidiano das mulheres é bastante atribulado e complexo, justamente por competirem de igual para igual com os homens no mercado de trabalho, fato esse que não se deu gratuitamente, pois nós, mulheres, conquistamos tal lugar por absoluto mérito. No entanto, como tudo na vida tem um preço, temos de encarar, ao contrário dos homens, ainda nos dias de hoje, a dupla jornada, além das questões individuais relacionadas à personalidade de cada uma. É claro que muitos companheiros e pais estão cada vez mais participativos e colaboradores no cuidado com os filhos, mas todas nós sabemos que existem tarefas que são única e exclusivamente de responsabilidade feminina e que, por mais que tenhamos alguém que nos ajude, apoie e colabore conosco, não há como delegar por completo o cuidado com os filhos.
O que os pais precisam saber – e cada vez me envolvo mais com essa questão –é que filho não é descartável e que, a partir do momento em que decidem ter um filho, este estará presente a vida toda e não adianta dispor de apenas alguns minutos por dia ou terceirizar os cuidados com ele, pois o afeto e o amor de pai e mãe não devem ser delegados a terceiros. O que os pais devem saber é que filho demanda tempo, atenção, cuidado e envolvimento e talvez aí esteja a origem de tanta culpa, pois nesta vida moderna e muitas vezes “enlouquecida” com tantos afazeres, nem sempre existe a possibilidade de dar conta de tudo.
Ter um filho requer muitas obrigações e é imprescindível abrir mão de algumas coisas para poder integrá-lo à nossa vida, embora muitas vezes seja muito difícil fazer escolhas a fim de ter uma família.
A maternidade ou paternidade é uma dádiva e traz inúmeras maravilhas, porém acarreta dificuldades também. E pode ser vivida de forma plena, mas isso não quer dizer que esteja livre de problemas. Fazer escolhas não é simples nem se livrar da culpa por não dar conta de tudo. A vida, em qualquer situação, requer que façamos escolhas continuamente – e com os filhos, essa situação não muda.
Acredito que a maior dificuldade com eles é administrar as novas escolhas que eles próprios nos obrigam a fazer. Mas precisamos ter consciência do fato de que ter filhos não é brincadeira e não dá para mandá-los de volta ou dizer como as crianças dizem: “Não quero brincar mais disso”.
Uma saída para lidar com essa questão é tentar olhar para dentro de si e perceber o que de fato o pai e a mãe esperam da própria vida, dos filhos e do que estão vivendo. Buscar o apoio de uma psicoterapia pode ser uma boa alternativa, pois é possível, com a ajuda profissional, entender a causa desses sentimentos, que nem sempre estão integrados no interior de cada um. Muitos desses sentimentos podem ter significados muito mais positivos do que se imagina, além de também poderem ser a mola propulsora para o autoconhecimento e o amadurecimento.


Cynthia Boscovich
Psicóloga clínica, psicanalista. Além de atender adolescentes e adultos em seu consultório, possui um trabalho específico com grávidas, mães e bebês, na área de prevenção e tratamento.
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